A recuperação energética de resíduos tornou-se uma das áreas mais dinâmicas da engenharia ambiental. Nesse contexto, o engenheiro Odair José Mannrich, fundador da Versa Engenharia Ambiental, é um dos profissionais que acompanha de perto a evolução dessas tecnologias no cenário brasileiro.
O Brasil enfrenta um paradoxo curioso: ao mesmo tempo em que busca diversificar sua matriz energética e reduzir emissões de carbono, descarta bilhões de toneladas de resíduos com alto potencial energético em aterros sanitários ou, pior, em lixões irregulares. Essa contradição começa a ser enfrentada com mais seriedade à medida que as tecnologias de recuperação energética ganham viabilidade econômica e o marco regulatório avança.
Confira neste artigo como o aproveitamento energético do lixo funciona na prática, quais tecnologias estão em expansão e por que esse modelo pode transformar a forma como as cidades lidam com seus resíduos.
O que significa, de fato, recuperar energia dos resíduos?
Recuperação energética é o processo pelo qual resíduos que não podem ser reciclados ou reaproveitados de outra forma são convertidos em energia útil, seja elétrica, térmica ou em forma de combustível. As principais tecnologias utilizadas incluem a incineração com aproveitamento do calor gerado, a gaseificação, a pirólise e o aproveitamento do biogás produzido em aterros sanitários.
Cada tecnologia tem características específicas de aplicação, custo e eficiência. A incineração com recuperação de energia, por exemplo, é amplamente utilizada na Europa e permite reduzir o volume dos resíduos em até 90%, gerando eletricidade e calor no processo. Já o biogás de aterro é uma alternativa de implantação mais gradual, que aproveita a infraestrutura já existente para gerar energia a partir da decomposição orgânica.
Nesse panorama, o engenheiro Odair José Mannrich aponta que a escolha da tecnologia mais adequada depende de variáveis locais, como a composição dos resíduos, escala do projeto, disponibilidade de infraestrutura e capacidade de investimento do município ou operador.
Por que o Brasil ainda avança lentamente nesse setor?
Apesar do potencial expressivo, o Brasil ainda ocupa uma posição tímida no mapa global da recuperação energética de resíduos. Entre os principais obstáculos estão a complexidade do licenciamento ambiental, a falta de uma política nacional específica para waste-to-energy, a resistência de setores ligados à reciclagem e a ausência de mecanismos de financiamento adequados para projetos de longo prazo.

Além disso, a composição dos resíduos brasileiros, com alto teor de matéria orgânica e umidade, reduz o poder calorífico do material e exige adaptações tecnológicas em relação aos modelos europeus. Isso não inviabiliza os projetos, mas demanda engenharia mais especializada e soluções desenvolvidas com base na realidade local.
Segundo o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, projetos bem-sucedidos nessa área exigem diagnóstico técnico aprofundado antes da escolha do modelo de tratamento, evitando a importação de soluções que funcionam bem em outros contextos, mas não se adaptam às condições brasileiras.
Biogás de aterro: a porta de entrada mais acessível
Entre as tecnologias disponíveis, o aproveitamento do biogás gerado em aterros sanitários é, atualmente, a alternativa com maior viabilidade de implementação em escala no Brasil. O país possui centenas de aterros ativos com potencial de geração, e a tecnologia de captação e uso do metano já está consolidada e com custos decrescentes.
Projetos dessa natureza já operam em cidades como São Paulo, Gramacho e Nova Iguaçu, gerando energia elétrica e créditos de carbono negociáveis no mercado internacional. O modelo, além de ambientalmente vantajoso, cria uma fonte de receita para os operadores e contribui para as metas climáticas do país.
À vista disso, o engenheiro Odair José Mannrich representa um perfil de profissional que o setor cada vez mais demanda: aquele capaz de transitar entre o conhecimento técnico de engenharia, a viabilidade econômica dos projetos e a responsabilidade ambiental que projetos dessa magnitude exigem.
Resíduos como recurso: a mudança de mentalidade que o setor precisa
O avanço da recuperação energética no Brasil não depende apenas de tecnologia ou regulação. Depende, sobretudo, de uma mudança de mentalidade na forma como gestores públicos, empresas e a sociedade enxergam os resíduos. Enquanto o lixo for visto apenas como problema, as soluções continuarão sendo paliativas.
Quando passa a ser tratado como recurso, abre-se espaço para modelos de negócio sustentáveis, para a atração de investimentos privados e para a construção de infraestrutura ambiental que gera valor no longo prazo. Nessa mesma lógica, conforme destaca o engenheiro Odair José Mannrich, a engenharia ambiental não é apenas uma área técnica: é uma ferramenta de transformação urbana e social.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
