A participação de associações e cooperativas de catadores está entre os pontos que deverão ser considerados no estudo para criação de um sistema de créditos ambientais em Manaus. A proposta é analisada pela Prefeitura, por meio da Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Município de Manaus (Ageman), e pela Ambipar Environmental Machines S.A., empresa especializada em soluções para logística reversa e reaproveitamento de resíduos.
As tratativas começaram em reunião realizada em 30 de outubro de 2026 e têm como objetivo avaliar se a destinação correta de materiais recicláveis poderá gerar créditos ou benefícios financeiros para a população. Em uma etapa posterior, esses créditos poderiam ser utilizados no pagamento de serviços públicos municipais concedidos ou delegados, desde que o modelo seja considerado viável nos aspectos técnico, jurídico, ambiental e operacional.
A informação foi divulgada pela página de notícias da Prefeitura de Manaus e detalhada no comunicado oficial sobre a reunião com a Ambipar. O estudo terá duração prevista de 12 meses e não prevê transferência de recursos financeiros entre as instituições envolvidas.
Como os créditos poderiam ser gerados
O modelo em avaliação parte da ideia de transformar a entrega adequada de recicláveis em um benefício associado à prestação de serviços públicos. Para isso, seria necessário estabelecer quais materiais poderiam ser recebidos, como seriam pesados ou registrados, de que maneira ocorreria a comprovação da destinação e quais critérios definiriam a conversão dos resíduos em créditos.
Segundo a Prefeitura, a Ambipar deverá apresentar informações técnicas sobre os mecanismos de geração dos créditos, a rastreabilidade dos materiais e as possibilidades de integração tecnológica. Esses elementos são importantes para acompanhar o caminho dos resíduos desde a coleta até a triagem, o beneficiamento e a comercialização, além de dar segurança ao sistema de contabilização.
A proposta está relacionada ao Decreto Municipal nº 6.225/2025, citado no comunicado oficial como base para programas de incentivo à reciclagem por meio de mecanismos de cashback ambiental. A norma permite estudar formas de converter a destinação correta de resíduos em créditos financeiros vinculados a serviços públicos municipais concedidos ou delegados.
Cooperativas podem participar da cadeia
Um dos focos do estudo é garantir espaço para as organizações de catadores nas diferentes etapas da logística reversa. A avaliação deverá considerar a participação das cooperativas e associações na coleta, na separação, no beneficiamento e na comercialização dos materiais recicláveis, além de medidas relacionadas à capacitação, à remuneração e à geração de trabalho e renda.
Esse ponto aproxima a discussão ambiental das condições de trabalho de grupos que já atuam na recuperação de resíduos em Manaus. Ao incluir os catadores no desenho do programa, o município e a empresa podem estruturar uma cadeia que não dependa apenas de equipamentos ou plataformas digitais, mas também reconheça o trabalho realizado na triagem e na preparação dos materiais para retorno ao ciclo produtivo.
A relação da Ageman com iniciativas da Ambipar já vinha sendo construída antes da reunião de outubro. Em publicação de maio de 2025, a Prefeitura de Manaus informou que a agência discutia a expansão das chamadas Retorna Machines, equipamentos destinados ao recebimento de embalagens pós-consumo.
Na ocasião, a administração municipal informou que as máquinas aceitavam materiais como plástico, vidro, alumínio, aço e embalagens longa vida. O sistema fazia a leitura das embalagens e gerava pontuação convertida em benefícios dentro do programa utilizado pela empresa. Essa experiência anterior ajuda a explicar a base tecnológica que agora poderá ser avaliada em um modelo voltado aos serviços públicos municipais.
Ageman fará avaliação regulatória
A Ageman participará das discussões dentro de suas atribuições legais, especialmente na análise dos serviços públicos delegados. Entre os temas que deverão ser examinados estão a transparência na conversão dos resíduos em créditos, a segurança dos sistemas, a participação dos moradores e a possibilidade de integração com mecanismos de cobrança já existentes.
O envolvimento da agência reguladora também indica que a proposta não se limita à instalação de pontos de coleta ou à criação de uma ferramenta de bonificação. O estudo precisará verificar como um eventual benefício se relacionaria com contratos, concessionárias e regras aplicáveis aos serviços municipais. A definição desses procedimentos será necessária para que o sistema possa avançar de uma iniciativa ambiental para uma política com aplicação prática.
Para Manaus, a discussão reúne três frentes: incentivo à separação dos resíduos, fortalecimento da cadeia de reciclagem e busca por benefícios vinculados aos serviços públicos. A proposta ainda depende dos estudos previstos e da definição de critérios de funcionamento, mas já coloca os catadores, a rastreabilidade e a regulação no centro do debate sobre o aproveitamento de materiais recicláveis na capital amazonense.
