Assistir a um ciclista profissional subindo uma montanha, girando as pernas em ritmo acelerado, quase noventa rotações por minuto, levou gerações de amadores a concluir que cadência alta é sinônimo automático de eficiência superior. A fisiologia do exercício conta uma história mais nuançada do que essa conclusão popular sugere.
Rolando Bonaccorsi, que combina a rotina de operações de tecnologia ao hábito de pedalar, observa que copiar cegamente a cadência de um profissional, sem entender por que ele pedala daquele jeito, costuma confundir mais do que ajudar ciclistas amadores em busca de melhor performance.
A crença: cadência alta é sempre mais eficiente
A ideia se popularizou nos últimos trinta anos, à medida que o pelotão profissional migrou visivelmente de cadências mais baixas, comuns décadas atrás, para giros mais rápidos e leves, associados a menor desgaste muscular ao longo de provas de várias horas de duração. Sendo assim, essa mudança de comportamento profissional foi interpretada, de forma simplificada, como prova definitiva de que cadência alta é objetivamente melhor, uma conclusão que ignora o contexto específico e as métricas reais que motivaram essa transição dentro do ciclismo de elite.
Essa simplificação se espalhou rapidamente entre amadores justamente por ser fácil de repetir, retrata Rolando Bonaccorsi, basta olhar a transmissão de uma grande volta, notar as pernas girando rápido e concluir que aquele número específico deveria se tornar meta pessoal, sem qualquer consideração sobre biotipo ou objetivo individual de treino.
O que o laboratório realmente mostra
Estudos de fisiologia do exercício encontram, de forma consistente, que a cadência metabolicamente mais econômica em repouso relativo gira em torno de setenta rotações por minuto, número que sobe para algo próximo de oitenta e seis conforme a fadiga se acumula ao longo do esforço.
Esse número de laboratório é sensivelmente mais baixo do que a cadência de noventa rotações observada em ciclistas profissionais durante competição real. Conforme indica Rolando Bonaccorsi, a explicação está numa troca deliberada: profissionais aceitam gastar mais energia metabólica em favor de preservar a musculatura das pernas ao longo de horas de prova, evitando o acúmulo de fadiga muscular que uma cadência mais baixa e mais pesada provocaria.
Por que a cadência livremente escolhida venceu nos estudos?
Um experimento que comparou desempenho em diferentes cadências, forçando ciclistas a pedalar em ritmo baixo, alto e no ritmo que cada um escolhia naturalmente sem qualquer instrução, encontrou resultado revelador: o desempenho em prova contra o tempo foi superior justamente na cadência que cada ciclista já preferia por conta própria.
Esse achado sugere que o corpo de cada pessoa desenvolve, ao longo de anos de prática, uma cadência naturalmente mais eficiente para sua própria biomecânica específica, moldada por fatores individuais como comprimento de perna, composição de fibras musculares e histórico de treino acumulado ao longo do tempo.
Rolando Bonaccorsi pondera que esse resultado deveria mudar a forma como ciclistas amadores encaram conselhos genéricos sobre cadência: uma recomendação que funciona bem para a média de um grupo estudado não necessariamente representa o ponto ótimo para qualquer indivíduo específico dentro desse mesmo grupo.
Treinar a própria cadência, não copiar a alheia
Em vez de forçar um número específico copiado de referências profissionais, a estratégia mais eficaz costuma ser treinar deliberadamente em uma faixa ampla de cadências, incluindo intervalos específicos em ritmo mais baixo e mais alto, permitindo que o próprio corpo revele, ao longo do tempo, sua faixa mais confortável e mais eficiente de giro.
Para a maioria dos ciclistas amadores, pedalar entre oitenta e noventa rotações por minuto em terreno plano costuma funcionar bem como ponto de partida razoável, ajustando para baixo em subidas mais íngremes e para cima em arrancadas curtas, sem qualquer obrigação de perseguir o número exato observado em transmissões de provas profissionais assistidas pela televisão.
