Márcio André Savi, engenheiro, identifica que a economia circular é frequentemente apresentada como uma mudança de mentalidade, porém sua implementação efetiva depende da existência de infraestrutura adequada para a reintegração dos materiais ao ciclo produtivo. A ausência de coleta, triagem, logística e tratamento adequados impede que o discurso da circularidade ultrapasse os limites físicos e operacionais, desafios que não podem ser superados por campanhas isoladas.
O conceito propõe a substituição do modelo linear de extrair, produzir, consumir e descartar por um sistema no qual os produtos, componentes e materiais mantenham seu valor pelo maior tempo possível. No Brasil, a ideia está alinhada com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e a logística reversa para setores como pneus, pilhas, baterias e eletroeletrônicos.
Entender o que diferencia economia circular de reciclagem, quais estruturas tornam esse modelo viável e onde estão os principais obstáculos ajuda a separar projetos consistentes de iniciativas que apenas utilizam o termo. Os próximos tópicos abordarão precisamente esse percurso.
Economia circular não é sinônimo de reciclagem
A reciclagem constitui uma das estratégias da economia circular, embora não seja a principal. A circularidade prioriza a manutenção do valor dos produtos em um patamar elevado, por meio de um design focado na durabilidade, reparo, reutilização e remanufatura. A reciclagem é um processo que se inicia quando um item deixa de atender às suas funções originais.
A lógica é simples de visualizar. A cada desmontagem de produto, há perda de energia, trabalho e recursos incorporados à sua fabricação. A embalagem retornável, quando devolvida à linha de envase, preserva mais valor do que a mesma embalagem triturada e derretida para virar outro objeto.
Em sua explicação, Márcio André Savi pontua que essa hierarquia possui uma tradução técnica direta: quanto mais elevado o nível de recuperação, menor tende a ser o consumo de energia e de recursos naturais no processo. Nesse modelo, a engenharia deixa de atuar apenas no fim do ciclo e passa a participar das decisões de projeto, da escolha de materiais e da facilidade de desmontagem.

A infraestrutura que faz os materiais voltarem ao ciclo
A logística reversa é a primeira peça do sistema e envolve pontos de entrega, coleta específica, transporte e centrais que reúnem material para encaminhamento à indústria recicladora.
A triagem e o beneficiamento definem a qualidade do que retorna à produção. Matérias-primas contaminadas perdem valor de mercado e, muitas vezes, são descartadas. Usinas e cooperativas organizadas aumentam o aproveitamento com a separação adequada dos resíduos.
Na avaliação de Márcio André Savi, a fração orgânica merece atenção especial nesse desenho, porque costuma representar grande parte do resíduo domiciliar. A compostagem e a biodigestão permitem a devolução de nutrientes ao solo e a geração de energia, ao mesmo tempo em que retiram dos aterros um material que, quando disposto sem tratamento, produz chorume e metano.
De acordo com o engenheiro Márcio André Savi, a logística é um fator determinante para o resultado econômico. A distância entre os pontos de geração e as indústrias que utilizam material reciclado pode tornar o transporte mais caro do que o valor do próprio resíduo, reforçando a importância de se estabelecerem escalas regionais, consórcios intermunicipais e unidades de processamento próximas aos centros consumidores.
Obstáculos para a economia circular no Brasil
O mercado para materiais secundários ainda apresenta volatilidade significativa. Em certos períodos, a matéria-prima virgem chega à indústria a um custo inferior ao do reciclado, o que desmotiva a aquisição de material reciclado. Questões tributárias frequentemente apontadas pelo setor também impactam a competitividade das cadeias de reciclagem.
A separação na origem continua baixa em muitas cidades, e a coleta seletiva não alcança toda a população. A recuperação de recicláveis depende em grande parte do trabalho dos catadores, muitos deles em condições informais, demonstrando a relevância social dessa atividade e a necessidade de estruturá-la com equipamentos, contratos e segurança.
Ao analisar esse cenário, o especialista Márcio André Savi aponta que a falta de dados confiáveis sobre geração, composição e destino dos resíduos dificulta o planejamento de qualquer política circular. A ausência desses indicadores dificulta a dimensionação de estruturas, a definição de metas realistas e a mensuração do impacto das iniciativas nos municípios e empresas.
Circularidade como projeto de longo prazo
Em última análise, a economia circular ultrapassa a simples reciclagem. A iniciativa envolve uma reavaliação dos produtos, a organização das cadeias de retorno, o tratamento da fração orgânica e a criação de mercados estáveis para materiais recuperados. Trata-se de um esforço conjunto entre poder público, setor produtivo e consumidores.
Sob a perspectiva da engenharia, Márcio André Savi considera que o avanço depende da transformação do conceito em infraestrutura concreta, com logística eficiente, unidades de triagem e tratamento bem dimensionadas e dados que orientem cada decisão. Nesse ponto, a circularidade deixa de ser uma tendência para se transformar em um sistema.
